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Do julgamento (exegese de Mt 7.1-2)

Postado por Georges Nogueira em Apologia, Exegese |

Pode o cristão julgar?


Para perfeita compreensão deste artigo, é recomendável a leitura prévia deste artigo, e indispensável a leitura deste artigo.

“Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós.” (Mt 7.1-2).

Os dois versículos em questão estão contidos em um dos discursos de Jesus acerca do Reino de Deus. Este discurso é também conhecido como o “sermão da montanha”, em alusão ao fato de ser todo ele proferido de um monte onde o Senhor subiu para poder ensinar à multidão.

A palavra utilizada no original grego é κρινετε derivada de κρίνω, cuja transliteração é Krino, e o significado, juiz. Morfologicamente, segundo o Robinson’s Morphological Analysis Codes e o Vine’s Expository Dictionary of New Testament Words, κρινετε está na segunda pessoa do tempo presente, com voz ativa e no plural. Em português: “julgueis”.

Ainda conforme o Vine`s Dictionary, a palavra utilizada no original grego significa:

“primeiro indica separar, selecionar, escolher; portanto, determinar e então julgar, pronunciar julgamento”

Jesus diz, com todas as letras, que não devemos nos colocar como juízes e pronunciar sentença contra uma pessoa, e condená-la, principalmente se estamos usando a nós mesmos como padrão. Jesus está dizendo com isso, que o espírito de crítica, o julgamento temerário, estes são repreensíveis, porque só quem pode condenar é Deus. Em suma, eu e você não podemos dizer que determinada pessoa vai para o inferno. Mas em momento algum, estes dois versículos proíbem qualquer cristão de fazer qualquer juízo são. Este último, pelo contrário, é várias vezes recomendado e estimulado no mesmo discurso.

Alguns capítulos adiante, (13.25) neste mesmo Evangelho, Jesus nos mostra, através de uma parábola, que Satanás está semeando joio no meio do trigo. Nossas Igrejas estão cheias de descrentes, mas na mesma parábola o Senhor nos alerta para que não arranquemos ainda o joio, para não arriscar de arrancarmos junto o trigo, pois as duas ervas são iguais durante seus primeiros estágios de desenvolvimento. Apenas o Senhor da Seara poderá arrancar o joio e queimá-lo no fogo. Este é o sentido da advertência de Jesus, não devemos condenar a ninguém, porque somente o Senhor, quando for chegada a hora, revelará os desígnios do coração de cada um e mostrará quem será salvo e quem será condenado (1Co 4.5). Neste ponto, não há controvérsia.

O já citado discurso onde estão inseridos estes versículos, é justamente aquele em que o Mestre nos ensina acerca da justiça do Reino. Começa em 5.1 e termina em 7.29. Nele, Jesus aprofunda muitos dos mandamentos que os fariseus de então distorciam em proveito próprio. Neste mesmo discurso, Jesus explica que o adultério pode ser cometido por um olhar, sem que haja sua consumação sexual. Jesus está trazendo os mandamentos sagrados de volta ao lugar onde eles devem permanecer. Está trocando o cumprimento cerimonial e meramente burocrático dos mandamentos divinos pela transformação de vida que a conversão deve produzir em cada um de nós.

Assim que acaba de falar acerca do juízo temerário e hipócrita, no versículo imediatamente posterior, (7.6) Jesus diz que não se deve dar aos cães o que é santo, nem lançar as pérolas aos porcos. Neste ponto, o Senhor está utilizando uma figura de linguagem. Cães e porcos eram animais considerados imundos pelos judeus que O estavam ouvindo. Ninguém, em sã consciência, jogaria pérolas valiosas aos porcos. Jesus estava dizendo, com isso, que não se deve confiar as coisas santas aos ímpios, nem desperdiçar sua sabedoria com os tolos. Tais pensamentos encontram correspondência nos seguintes versículos:

“Não repreendas ao escarnecedor, para que não te odeie; repreende ao sábio, e amar-te-á.” (Pv 9.8).

“Não fales aos ouvidos do tolo; porque desprezará a sabedoria das tuas palavras.” (Pv 23.9).

Seguindo na leitura do texto do mesmo discurso e do mesmo capítulo de Mateus, encontramos, logo à frente, uma grave advertência do Senhor quanto ao julgamento como meio de se formar juízo e de se ter opinião de maneira tal que nossas atitudes possam ser guiadas por este juízo:

“Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.” (Mt 7.15)

Neste ponto, é feita a distinção entre uma e outra situação: entre o condenar ao inferno ou à perdição quem quer que seja, e o não se deixar enganar pelos lobos. Jesus manda que nos guardemos destes. E a maneira de saber se são eles ou não falsos profetas, é avaliando seus frutos.

Apenas como ilustração, posso dizer que quando eu vejo um homem transformado, que abandonou o vício e agora luta contra o próprio pecado porque foi evangelizado por alguém, posso considerar isso como um bom fruto. Da mesma maneira, quando vejo em um mundo tão cheio do pecado, com tantas pessoas se perdendo no mundo do vício, do crime, da fome, sem que ninguém tenha lhes oferecido uma oportunidade de mudar suas vidas miseráveis pela pregação do Evangelho acompanhada de um pedaço de pão, um “ministro do euvangelho” comprar um avião que custa muitos milhões de dólares, o que aprendi das escrituras não me permite enxergar essa escolha como um bom fruto.

Em Mt 19.28-29, Jesus assegura a seus discípulos que eles julgarão as doze tribos de Israel quando se assentarem com Ele na Glória, e estende a todos nós esta garantia. Desta forma, fica claro que tipo de “julgamento” não podemos fazer, e que tipo podemos. Se Jesus é o modelo de vida que devemos seguir, observemos outras de suas atitudes, para confirmar se podemos ou não julgar: Jesus chama os fariseus de “raça de víboras” (Mt 12.34; 23.33); Jesus chama os fariseus de “hipócritas” (Mt 15.7; 22.18 23.13-15; 23.23; 23.25; 23.27; 23.29 Lc 12.56; 13.30); Em Jo 8.44, Jesus diz a um grupo de judeus que havia crido nEle, que eles eram filhos do diabo; Jesus expulsa os vendilhões do templo, derruba suas cadeiras e mesas, e chega mesmo a fazer um chicote para expulsá-los: (Jo 2.14-15).

Antes que a condição de verdadeiro Deus e verdadeiro homem possuída por Jesus possa levar a confusão, fazendo crer que Jesus em todos esses casos julga porque é Deus, vejamos outros exemplos: João Batista chama os fariseus de “raça de víboras” (Mt 3.7); Paulo exorta a não comermos ou nos associarmos com os falsos irmãos (1 Co 5.11).

Em 1 Co 5, Paulo ensina aos crentes de Corinto sobre como devem julgar pessoas de má conduta dentro da igreja. No versículo 3, Paulo diz: “Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já julguei, como se estivesse presente, aquele que cometeu este ultraje”.

Paulo já julgou. No versículo 7, ele insta a Igreja a expurgar o fermento. Neste mesmo livro, em 2.14-16, aprendemos que o homem espiritual julga todas as coisas, porque tem a mente de Cristo. Em 6.2-3 do mesmo livro, Paulo nos revela que haveremos de julgar o mundo e até mesmo os anjos. Em 12.33, diz que quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor. Em 14.29, aprendemos que devemos julgar o que dizem os profetas. Somos instados, a todo o momento, a ler as Escrituras, e a julgar, examinar, provar se tudo que nos dizem é correto (At 17.11; 1 Ts 5.21Hb 13.7-9).

Também a Palavra de Deus é suficiente para que possamos discernir os pensamentos e intenções do coração (Hb 4.12; 5.12-14).

Como úlitma grande ilustração sobre o dever-se ou não julgar, tomemos o exemplo de Pedro: Pedro foi um Apóstolo de Jesus. Pedro comeu com Ele, andou com Ele, Pedro O amou. Pedro andou sobre as águas junto com Jesus, Pedro foi amigo do Senhor. Jesus esteve na casa da sogra de Pedro e pescou com ele. O Espírito Santo de Deus, através de Pedro, converteu mais de três mil pessoas, coisa que nem mesmo Jesus havia feito, para que se cumprissem as Escrituras.

O Espírito Santo de Deus, através de Pedro, matou a Ananias e Safira. Pedro foi liberto da prisão pelo anjo do Senhor. Pedro era um líder reconhecido por todo o mundo. Pedro ressuscitou a pequena Tabitha, e os doentes se curavam apenas de a sombra de Pedro passar por eles, ou de tocarem o manto de Pedro. Mesmo com todas essas qualidades, e toda essa incomparável autoridade espiritual, Pedro errou. E Paulo, ao presenciar o erro de Pedro, o que fez? Deixemos que o próprio Apóstolo responda:

“Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti -lhe face a face, porque se tornara repreensível. Com efeito, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a apartar -se, temendo os da circuncisão. E também os demais judeus dissimularam com ele, a ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles. Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho, disse a Cefas, na presença de todos: se, sendo tu judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” (Gl 2.11-14).

Se o homem que foi amigo de Jesus, e que andou e comeu com Ele, e foi escolhido por Ele, pôde ser repreendido quando errou quem é o homem que não poderá ser?

Existem pelo menos mais uma centena de versículos bíblicos que apóiam a idéia de que temos não somente o direito, mas a obrigação de julgar, avaliar, medir, discernir a todas as coisas e pessoas, desde que o façamos conforme a Palavra de Deus.

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3 Comentários para "Do julgamento (exegese de Mt 7.1-2)"

  1. Olivar Alves Pereira disse:

    Oba! Cheguei primeiro! E não comi cru e quente como se diz por aí. Comi um alimento sólido, bem preparado numa “cozinha bíblica”. Deixando as figuras de linguagem de lado, meu caro Georges, parabéns pelo excelente artigo. A clareza, equilíbrio e profundidade bíblica do mesmo é notável.
    É disso que sempre falei quando teci minhas críticas a tantos pregadores do “eu-vangelho” (muito boa essa!). Falta a muitos crentes justamente essa compreensão do assunto para que não sejam um bando de “bocas abertas” engolindo tudo o que os “ungidões” andam pregando e aprontando por aí.
    Discernimento, meu povo, discernimento!!!

    Olivar

  2. Caro Olivar,
    Fico feliz com sua aprovação. É sinal de que a leitura e as pancadas que levo estão produzindo algum efeito.

    E a Graça muda tudo!

    Em Cristo!

  3. Olivar Alves Pereira disse:

    inspirado nesse seu artigo, escrevi a seguinte pastoral para minha Igreja no boletim dessa semana.

    “Eu-vangelho”
    “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (G.1.8).
    Quando Paulo disse essas palavras ele tinha em mente os judaizantes, que eram judeus que se diziam convertidos a Cristo, mas que exigiam que todos os gentios (não judeus) convertidos a Cristo cumprissem todos os ditames da tradição judaica a fim de serem salvos. Em outras palavras, os judaizantes pregavam que além de Cristo era necessário mais algumas coisas para se salvar. Enquanto que Paulo e os apóstolos deixaram bem claro que só Cristo é suficiente.
    Por isso mesmo Paulo é tão incisivo quando diz que se alguém apresentasse uma mensagem que acrescentasse algo mais à mensagem de Cristo, deveria ser considerado anátema (maldito).
    Na “bíblia” dos Mórmons, por exemplo, está escrito na capa: “O Evangelho de Mórmon – um outro Evangelho de Cristo”. No Espiritismo você encontrará o “Evangelho segundo Allan Kardek”. Eles por si só se colocam contra o Evangelho de Cristo cabendo-lhes a sentença de Gl.1.8.
    Mas o que dizer dos “apóstolos, profetas” e pastores que trazem um “eu-vangelho” e não o Evangelho? Trazem uma mensagem centrada em si mesmos, nos seus projetos pessoais aos quais eles batizam com o nome de “sonhos de Deus” (não sei quando Deus começou a sonhar, pois, sempre entendi que sonhar é para quem não tem poder para executar sua vontade, mas tem de esperar que alguém ou alguma força maior o ajude a realizar tal sonho). E dizendo isso, convocam seus “parceiros e sócios” (antes eram chamados de irmãos e cooperadores do Evangelho), para ajudá-los nos seus projetos faraônicos.
    Estamos vivendo uma época na qual um “eu-vangelho” está ocupando os púlpitos, os corações, mas, que nada tem a ver com o Evangelho de Cristo, o Evangelho da Graça, que salva, transforma e liberta o pecador.
    Mas do que nunca, as palavras do Senhor Jesus devem ser obedecidas: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores” (Mt.7.15).
    Olivar Alves Pereira

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