O cristão e o álcool I – a definição do que é vinho

31,maio,2009 por Georges Nogueira

Pode o cristão consumir bebida alcoólica?

Para responder à pergunta, devemos, como sempre, recorrer à Bíblia Sagrada. Alguns defensores da idéia de que o vinho pode ser consumido, costumam citar as passagens de Gn 9:20-27,  que narra a embriaguês de Noé, e Gn 19:31-38 que conta a história da gravidez das filhas de Ló.

No Evangelho de João, 2:1-11, o primeiro milagre público conhecido de Jesus foi a trasformação de aproximadamente 500 litros de água em vinho, que fora servido em uma festa de casamento. Teria o próprio Deus incentivado a bebedice que tanto é condenada em outras partes da Sagrada Escritura?

Será que, da mesma forma, devemos imaginar que na Santa Ceia instituída por Jesus, o vinho oferecido aos discípulos pelas mãos do próprio Senhor era o vinho alcoólico e embriagante das passagens citadas anteriormente?

Antes de discutirmos efetivamente acerca do que as escrituras nos dizem a respeito do vinho, convém compreender o que é o vinho, e como se dá o processo através do qual o mesmo é obtido a partir da uva.

Vinho é o nome dado ao suco extraído do sumo de uvas frescas. Esse processo de extração se dá em grandes vasilhas de madeira semelhantes a enormes bacias, chamadas nos tempos bíblicos de “lagares”, onde era realizada a pisa da uva. Nas indústrias modernas, a pisa foi substituída por máquinas que realizam a mesma tarefa. O resultado obtido é um caldo espumoso, ligeiramente adocicado, de forte coloração vermelha escura,  de agradável odor e paladar. Este caldo nada mais é do que o puro suco de uva fresco, livre de qualquer processo de fermentação.

Há muito tempo, cerca de cinco mil anos antes do nascimento de Cristo, o vinho já existia. Evidentemente, não era produzido em vinícolas, como se faz hoje. A bebida simplesmente surgia depois de algum tempo em que o suco de uva era deixado em contato com ar. Como os homens da época não sabiam explicar a transformação de um suco em algo que proporcionava uma grande sensação de alegria, achavam que a bebida era obra dos deuses. Os antigos egípcios diziam que era o deus Osíris que mandava aquela dádiva para aliviar o sofrimento dos homens na Terra. Mais tarde, os gregos diziam ser um néctar de seu deus Dionísio e os romanos, de seu deus Baco.

Porém, ao contrário do que pensavam os povos antigos, o vinho nunca resultou de mágica,  mas da ação de um fungo chamado levedura. A levedura é uma espécie microscópica de fungo que vive no ar e que, ao entrar em contato com os alimentos, pode provocar duas reações: a levedação – geralmento nos alimentos sólidos –  e a fermentação – nos líquidos.

A fermentação, que é a reação provocada pela levedura no vinho,  dá à bebida um teor alcoólico. A maneira como isso acontece permaneceu misteriosa até 1860, quando o cientista francês Louis Pasteur demonstrou que não eram os deuses e, sim, a levedura que estava por trás da transformação do suco de uva em vinho. Pasteur observou ao microscópio um pouco de suco de uva deixado em contato com o ar por algum tempo, percebendo a presença do fungo levedura. Fervendo esse mesmo suco, Pasteur conseguiu observar que a fermentação cessava, porque a levedura morria com o calor. estava provado que esses fungos microscópicos eram os responsáveis pela transformação do suco de uva em vinho. Mais tarde foi descoberto que, no caso do sumo da uva, esses microorganismos, alimentando-se do açúcar natural proveniente da fruta, produzem enzimas que convertem esse açúcar em gás carbônico e álcool. O gás se desprende do líquido, permanecendo apenas o álcool. Podemos dizer então que isto é suco de uva fermentado, ou vinho fermentado. A fermentação desse vinho (chamada de fermentação acética), por sua vez, produz o vinagre. Nesse caso, a transformação não era mais obra da levedura,  mas de uma bactéria trazida aos ambientes pela mosca das frutas, a Drosophila. Essa bactéria atua no vinho deixado em contato com o ar e transforma o álcool em vinagre.
Mais uma vez foi Pasteur o ator da descoberta. Em 1862, ele foi chamado ao palácio do imperador Luiz Napoleão para saber por que o vinho que a França ia vender a outros países estava azedando – se transformando em vinagre – dentro da garrafa. Sua pesquisa começou com o recolhimento de amostras de vinhos e com a observação delas ao microscópio. O que ele percebeu? Que essas bactérias só sobreviviam e se multiplicavam na presença de oxigênio. Provou isso isolando um pouco de vinho dentro de um tubo de ensaio, sem contato com o ar, e mostrando que ele não alterava seu sabor.
Pasteur, então, propôs que as garrafas fossem aquecidas, antes de receber o vinho, para eliminar qualquer microrganismo, e arrolhadas logo depois de cheias, para evitar que a bebida entrasse em contato com o ar. O processo de descontaminar e vedar as embalagens foi aplicado para conservar outros produtos, como o leite e, em homenagem a Louis Pasteur, ficou conhecido como pasteurização.

Nos tempos bíblicos não se dispunha das modernas técnicas de observação dos microorganismos utilizada por Pasteur, mas há farta literatura sobre outros métodos utilizados na época para impedir a fermentação do vinho. Escritores romanos antigos explicam com detalhes vários processos usados para tratar o suco de uva recém-espremido, especialmente as maneiras de evitar sua fermentação.  A Columela (Da Agricultura, 12.29), sabendo que o suco de uva não fermenta quando mantido frio (abaixo de 10 graus C.) e livre de oxigênio, descreve da seguinte maneira um destes  processos de conservação:

“Para que o suco de uva sempre permaneça tão doce como quando produzido, siga estas instruções: Depois de aplicar a prensa às uvas, separe o mosto mais novo [i.e., suco fresco], coloque-o num vasilhame (amphora) novo, tampe-o bem e revista-o muito cuidadosamente com piche para não deixar a mínima gota de água entrar; em seguida, mergulhe-o numa cisterna ou tanque de água fria, e não deixe nenhuma parte da ânfora ficar acima da superfície. Tire a ânfora depois de quarenta dias. O suco permanecerá doce durante um ano”

(ver também Columela: Agricultura e Árvores; Catão: Da Agricultura). O escritor romano Plínio (século I d.C. Plínio, História Natural, 14.11.83) escreve:

“Tão logo tiram o mosto [suco de uva] do lagar, colocam-no em tonéis, deixam estes submersos na água até passar a primeira metade do inverno, quando o tempo frio se instala”

Este método deve ter funcionado bem na terra de Israel (ver Dt 8.7; 11.11,12; Sl 65.9-13).  Outro método de impedir a fermentação das uvas é fervê-las e fazer um xarope.

No próximo artigo da série, estudaremos as ocorrências do Vinho no Antigo testamento. Que a graça e a paz do Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos até lá.

Edição em 01/09/2010 17:32:

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11 Comentários para " O cristão e o álcool I – a definição do que é vinho "

  1. Henrique Saint-Clair disse:

    Paz e Bem,

    Para contradizer seu texto sobre o que é vinho, segundo o Dicionário Bíblico de Davis, a “International Standard Bible Encyclopaedia” e o Dicionário de Teologia Bíblica da Bauer, (Edições Loyola):

    ” quase toda a bebida alcoólica que se fabricava em Israel era vinho genuíno, vinho de uvas, que eram colhidas maduras e transportadas em cestos para o lagar escavado em rocha, com cerca de 2 a 3 metros quadrados de superfície e 40 a 50cm de profundidade.”

    E sobre o método romano de evitar a fermentação do vinho, tudo bem. Mas o Sr se esquece que é pouco provável que na maior parte do território de Israel, onde a vinha era cultivada, se encontrasse água em tal quantidade e a essa temperatura durante todo o ano. É verdade que há neves eternas no monte Hermom, e mesmo em Jerusalém, devido à altitude, a temperatura média em Agosto (o mês mais quente) é de 26º centígrados, mas trata-se dum micro-clima, só no cimo do monte, pois na maior parte do vale do Jordão registam-se grandes amplitudes térmicas com altas temperaturas no Verão. Vejamos esta citação:

    “É muito difícil a conservação do mosto (portanto sem fermentação), sem o recurso a modernos meios de desinfecção, pelo que a sua preservação num clima quente e com deficiente higiene, não era possível.” (International Standard Bible Encyclopaedia – Volume V – página 3086)

    Então esse método, não deve ter funcionado “bem” em Israel, pelo menos em sua maior parte.

    Paz e Bem!

    • Sr. Henrique:
      Já está mais do que óbvio que tudo que o Sr. pretende ao comentar neste blog é isso mesmo, apenas contradizer.
      Quanto às fontes que o Sr. cita, não poderiam ser mais duvidosas e inidôneas. Todos sabemos que a editora Loyola pertence à instituição católica e também todos sabemos que a instituição romana falseia a verdadde desde o século quarto, quando sob o papado de Gregório IV, lançaram uma infnidade de documentos falsos para justficar o dogma romano da “primazia” do bispo romano.

  2. Muito instrutivo a exegese, e me resolveu uma antiga duvida, sobre o consumo do vinho por cristãos, eu mesmo não soube responder esta pergunta que uma vez me foi dirigida!
    Excelente!
    Graça e Paz para o moderador deste website!

  3. Caro Cornélio:
    Graça e Paz!
    De minha parte, fico extremamente feliz em poder servir aos irmãos.

  4. Ligya disse:

    Gosto muito desse website…
    Vi esse artigo e achei interessante, mais acho que não vi claramente a resposta da pergunta feita inicialmente. Gostaria de ter uma resposta mais direcionada para a bebida alcoólica em geral e não apenas o vinho.

    Louvo a Deus por existirem pessoas que usam a internet para a edificação de outros irmãos.

    Atenciosamente em Cristo,
    Gilrllany Ligya

  5. Vini disse:

    Caro Vini:
    Não permitimos comentários apócrifos neste blog.
    Como não conseguimos comprovar a veracidade do e-mail que você informou (nada@nada.nao), não posso publicar seu comentário.
    Caso queira que algum comentário seu seja publicado, identifique-se.

    Em Cristo Jesus,
    Georges Nogueira.

  6. Iago Zappelli disse:

    Na Grécia Antiga, o vinho era visto como mais que o éctar de Dionísio, era uma forma terrena de ser “possuído” por um deus por algumas horas. Ao estarem embriagados, eles sentiam-se SENDO Dionísio.
    O consumo do vinho, acredito eu, era bem comum na comunidade judáica, mas teria sido “mal-visto” pela Igreja exatamente por causa do jeito que os gregos o viam, afinal querer ser Deus foi a razão pela qual Adão e Eva foram expulsos do Paraíso.

  7. mara disse:

    para dizer que gostei muito deste blog, ele tem conteudos muito importantes, e que Deus abençoe o autor desse blog……………

    Ass: tamara pegado

    Angola-luanda

  8. josé ganhane disse:

    É isso aí prof. Esses libertinos xtão ferindo soldados valentes. “Ker comais ker bebais fzei tudo p glória d Deus” pergunt p os libertinos Deus sente-se glorificad qnd voçe bebe? Graça, graça nem sabem o que é graça. Moçanbique-Maputo

  9. avelar bezerra de araujo disse:

    doa paz do nosso SR JESUS CRISTO!
    estou felis ao extremo buscava apenas umas poucas informações sobre a
    produção de vinhos para melhorar uma pregação esta pagina sauvou a minha vida do
    engano e me ajudara noreino de DEUS sauvar outros
    GLORIAS !GLORIAS! GLORIAS A DEUS ! POR TER PESSOAS ASSIM NO REINO DELE!.


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