A paganização da Igreja sob Constantino

29,out,2009 por Georges Nogueira
Local da vitória de Constantino sobre Maxêncio
Ponte Mílvio: local da vitória de Constantino sobre Maxêncio.

Como já vimos nos posts anteriores, as duras perseguições à Igreja de Jesus permaneceram até o ano 311, quando o imperador romano do oriente Gaius Galerius Valerius Maximianus, então às portas da morte, publicou o Édito da Tolerância, descriminalizando do cristianismo junto com seu César Licínio e pediu orações aos cristãos pelo seu restabelecimento. Este édito de Galério abriria caminho ao Édito de Milão de 313(fontes diferentes informam de 311 a 314, porém as mais confiáveis apontam 313 o que cronologicamente em comparação à cronologia dos demais fatos conhecidos e principalmente da batalha da ponte Mívia que se deu no final do ano de 312), editado por Licínio e Constantino I que não apenas toleraria o Cristianismo, mas o reconheceria primeiro como uma das religiões oficiais, e, finalmente, como a única religião do império, reconhecendo a insânia da perseguição aos Cristãos.

Antes de Constantino, o cristianismo vivia em conflito com o mundo, como deve ser para aqueles que amam a Deus. Não ameis o mundo é uma determinação bíblica. A partir de Constantino, no entanto, o cristianismo deixou de ser inimigo deste mundo, e dele se tornou um feliz participante.

Apesar da intenção dos romanizantes de “santificar” a Constantino, o certo é que suas ações dizem o contrário. Antes, o fato de sua legitimidade como imperador ter sido sempre questionada, sempre foi habilmente adminstrada por ele por meio da religiosidade do povo romano. Prova de que não houve verdadeira conversão a Cristo em sua vida, é que apesar de ter Constantino dito que “Jesus lhe explicara em sonho” como ele deveria utilizar o lábaro contra seus inimigos, ele ainda se mantinha amigo e defensor de todos os cultos pagãos da época, como se pode comprovar através do texto do “Édito de Constantino” abaixo:

“Que todos os juízes, e todos os habitantes da Cidade, e todos os mercadores e artífices descansem no venerável dia do Sol. Não obstante, atendam os lavradores com plena liberdade ao cultivo dos campos; visto acontecer amiúde que nenhum outro dia é tão adequado à semeadura do grão ou ao plantio da vinha; daí o não se dever deixar passar o tempo favorável concedido pelo céu.”

Essa legislação data de 07 de março de 321, e foi editada em apoio à adoração do deus “sol invictus” no Império Romano. As religiões dominantes nas regiões do império eram todas pagãs, e em Roma, era notável a disseminação do mitraísmo, especificamente o culto do sol invictus. Os adeptos do mitraísmo se reuniam no domingo. Os judeus, que guardavam o sábado estavam sendo perseguidos sistematicamente neste momento, por causa das Guerras judaico-romanas e, por essa razão, o édito de Constantino é considerado anti-semita.

No ano de 323, Constantino alcançou o posto supremo de Imperador. Como a Igreja Cristã era, à época, a instituição mais numerosa de todo o império romano, Constantino decidiu por apoderar-se dela. A igreja católica, que ia se firmando então como entidade centralizadora da fé e declarando peremptoriamente que as Igrejas de Cristo que não se submetessem a ela eram igrejas heréticas, também se beneficiou grandemente dos interesses políticos do novo imperador. Com esta política de toma-lá-dá-cá, onde a autoridade de um fortalecia o prestígio de outra e vice-versa, a igreja católica, bem como as Igrejas cristãs que a ela não se curvaram, passariam por transformações profundas. Os templos das igrejas foram então restaurados e novamente abertos em toda parte. Em muitos lugares os templos pagãos foram dedicados ao culto cristão. Em todo o império os templos pagãos eram mantidos pelo Estado, mas, com, a “conversão” de Constantino, passaram a ser concedidos às Igrejas e ao clero cristão. O Domingo foi proclamado como dia de descanso e adoração. Como se vê, do reconhecimento do Cristianismo como religião preferida surgiram alguns bons resultados, tanto para o povo como para a igreja:

  • As perseguições acabaram;
  • A crucificação foi abolida;
  • Todos os templos foram restaurados e muitos outros construídos;
  • O infanticídio foi reprimido;
  • As lutas de gladiadores foram proibidas.

Apesar de os triunfos do cristianismo haverem proporcionado boas coisas ao povo, a sua aliança com o Estado inevitavelmente trouxe maus resultados para a igreja. As Igrejas eram mantidas pelo Estado e seus ministros privilegiados não pagavam impostos e seus julgamentos eram especiais.

Os cristãos não eram mais perseguidos, mas os pagãos passaram a ser, o que acabou acarretando muitas conversões falsas. Todos queriam ser membros da Igreja e quase todos eram aceitos. Homens mundanos, ambiciosos e sem escrúpulos, todos desejavam postos na Igreja, para, assim, obterem influência social e política.

Os cultos de adoração aumentaram em esplendor, é certo, porém eram menos espirituais e menos sinceros do que no passado. Aos poucos as festas pagãs foram incorporadas aos rituais da Igreja, porém com novos nomes que se “adequassem” ao cristianismo. A adoração a Vênus e Diana foi substituída pela adoração à virgem Maria. As imagens dos mártires começaram a aparecer nos templos, como objeto de reverência.

No ano de 363 todos os governadores professaram o Cristianismo e antes de findar o quarto século o Cristianismo foi virtualmente estabelecido como religião oficial do Império.

9 Comentários para " A paganização da Igreja sob Constantino "

  1. Eder Eudes da Silva disse:

    Eis a origem da igreja católica romana! Só não vê quem não quer,aliás,o pior cego é aquele que se recusa a enxergar!!!

  2. Iago Zappelli disse:

    Esse texto é verídico, mas não faz com que a Igreja Católica não ajude milhões de necessitados na nossa sociedade. Não é novidade pra ninguém que o Cristianismo é um junção do Judaísmo com a religião greco/romana. Se ñao houvesse a parte pagã, o Cristianismo não seria mais que o Judaísmo, Jesus usava a filosofia grega em suas palavras.

    • Caro Iago, seja bem vindo ao blog!
      Apenas duas considerações acerca do seu comentário.
      Com relação à salvação, ela não pode ser conseguida por obras. Então não faz diferença que se ajude as pessoas para este fim, embora as boas obras devem ser feitas como consequência desta salvação.
      Com relação ao cristianismo, creio que você não poderia estar mais enganado em sua afirmação. Não há nenhum paganismo no verdadeiro cristianismo.

      Em Cristo,
      Georges Nogueira.

  3. Leninha disse:

    Acho interessante o estudo aprofundado sobre as origens.
    O grande “problema” é que o conhecer trás conflitos antes inexistentes e ao emergi-los, nos impulsiona a uma nova postura.
    Minha ponderação está no que se refere ao fato de verificar-se a junção (ecumenismo) das diferentes crenças espirituais com a política e nos seus estudos (não li todos, ressalto), verifica-se a sua preocupação em aprofundar e embasar seus relatos e diante deles, vemos que a igreja protestante, que surgiu em oposição à postura tomada pela Igreja Católica Romana (a que se declara 1ª, mãe de todas as religiões- Declaração identificada na marquise da Basílica de São João de Latrão), no entanto, vemos que o ecumenismo primário, identificado nos primordios da instituição Cristã com o paganismo, onde, no intuito de se unificar a fé em “deus” (nota-se que seria todo e qualquer deus, seja ela o sol (especialmente), lua (existiam outros deuses paagãos), etc.) e a fim de minimizar problemas políticos, escolhe-se um único dia para se santificar a deus e o dia é o dia DIFERENTE do escolhido pelo Deus-Altíssimo.
    Vemos também outras formas de paganização na igreja ao longo de sua história e que mesmo com a reforma protestante, continuou camuflada na igreja de hoje (não temos imagens de escultura, não temos adoração a santos, MAS permanecemos aceitando a autoridade da “primeira” igreja “cristã”), quando mantemos a tradição romana de separação do domingo para louvor, adoração e santificação à Deus.

    Confesso que não consigo aceitar a observância do domingo como uma postura de protesto da igreja protestante, visto que o PRÓPRIO DEUS nos manda em seus 10 mandamentos, observar o sábado, dia que Ele separou para si. Traz-me grande aflição vero verbo transitivo direto do º mandamento: LEMBRA-TE! Mostra-nos que Deus sabia que esse mandamento seria esquecido e que as instituições humans iriam se sobrepor à de Deus.

    Creio que a igreja de Deus – O TODO PODEROSO, não deveria ter parte alguma com posturas pagãs, só assims e manteria pura e imaculada e não seria uma das prostitutas, filha da Grande Prostituta.

  4. Francisco Campos disse:

    O domingo já era considerado como o dia do descanso para os cristãos desde, pelo menos, Inácio de Antioquia, que morreu no ano 107, ou seja, muito antes de Constantino. Esse patriarca antioquiano terá conhecido pessoalmente João Evangelista. Assim, a tentativa de estabelecer alguma conexão entre práticas pagãs do IV século com o cristianismo só encontra alguma legitimidade na coincidência. Uma e outra coisa jamais tiveram qualquer ponto de contacto histórico ou doutrinário. O domingo era celebrado como o Dia do Senhor pelos cristãos devido ao fato de Jesus ter reaparecido aos apóstolos nesse dia e testemunhos de que a prática era generalizada entre os cristãos já no I século, ou seja, nos tempos apostólicos, são muitos e bastantes.

  5. Georges Nogueira disse:

    Sr. Francisco:

    O Domingo NÃO poderia ser considerado dia de descanso entre os cristãos, seguidores do Cristo Judeu!

    Essa baboseira sobre Inácio de Antioquia nada mais é do que parte das graves distorções dos fatos concernentes à origem da igreja disseminados pelos papas gregórios, verdadeiros marginais mestres em falcatruas (principalmente do I ao VI).
    Não adianta vir até aqui e dizer que “documentos” ou “testemunhos” são “muitos e bastantes”.
    Bastantes para quem? Para a farsa criada por uma quadrilha romana em busca do poder absoluto?
    O Édito de constantino é documento de conhecimento universal, e se encontra seu texto disponível em qualquer lugar.

    Veja duas referências ao pagão constantino e seu édito neste link. e neste link.
    Da próxima vez que o Sr. quiser falsear os fatos aqui, lhe aconselho a, pelo menos, elaborar uma mentira “melhorzinha”.

  6. Eliabe de Souza disse:

    Quero lhe parabenizar pelo texto. Um pequeno comentário: O axismo das pessoas, e a falta de conhecimento é imprecionante…. (Defesa da lei Mosaica mal feita)

    Sou Bacharel em Teologia. Pós – Graduado em ciências da religião

  7. Alana Lorrane Messi Maldonado disse:

    Quero lhe parabenizar pois achei o texto bem explicativo,sou aluna do 9º ano e estou estudando sobre esse assunto e achei bastante interessante .
    (Obrigado Pela cola da prova de História)


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