Política romana do século IV: Constantino e a Igreja

27,out,2009 por Georges Nogueira

O símbolo de Constantino

O símbolo de Constantino

Roma foi palco da maior de todas as mudanças políticas de sua história no início do século quarto. O famoso édito de Milão mudou definitivamente a história mundial, como discutiremos adiante. Voltemos, contudo para o governo ocidental de Constâncio I, também conhecido como Cloro (o pálido), que durou de 305 a 306. Foi pai de Constantino, chamado “o Grande” e foi casado com Júlia Helena, sobre cuja origem os historiadores não estão de acordo, alguns dizendo que provinha de uma linhagem real, outros que era uma concubina. Repudiou a esposa em 289 para casar-se com Teodora, filha do imperador Maximiano, por quem foi adotado e nomeado César. A carreira imperial de Constâncio esteve ligada basicamente à defesa da fronteira noroeste do Império Romano. Durante a perseguição aos cristãos, em 303, destacou-se pela sua humanidade (em termos pagãos), foi proclamado Augusto em 305, e morreu um ano depois, na Britânia, próximo a Eburacum (atual Iorque), numa expedição militar contra as tribos dos pictos e dos escotos. Governou junto com Galério que era o imperador do oriente à época.

Galério havia obrigado Maximiano a renunciar sob a ameaça de atacá-lo. Os dois Augustos renunciaram no mesmo ano de 305. Para manter a tetrarquia, Galério obrigou Diocleciano a nomear Maximino Daza como seu César e Severo como César de Constâncio Cloro. Os exércitos se recusaram a aceitar estas nomeações, pois preferiam Constantino, filho de Constâncio Cloro e Majêncio, filho de Maximiano. Várias legiões se rebelam e guerras civis explodiram por todos os lados. Severo cometeu suicídio, e Galério pediu ajuda a Diocleciano que nomeou Licínio como imperador do Ocidente (Roma) e confirmou Constantino como César do Ocidente e Maximino Daza como César do Oriente (Bizâncio). Entrementes, a perseguição aos cristãos prossegue firme sob Galério. Constantino e Majêncio, todavia, não implementaram a perseguição, pois percebiam a motivação política de Galério, que era a de se tornar dono absoluto do poder, como único César.

Como Constantino sempre teve sua legitimidade como imperador questionada, teve de se utilizar de vários ardis e subterfúgios para se manter vivo e no poder. Desta forma, enquanto esteve diretamente ligado a Maximiano, ele se apresentava como o protegido de Hércules, deus que havia sido apresentado como padroeiro de Maximiano na primeira Tetrarquia. Ao romper com seu sogro e eliminá-lo, contudo, Constantino passou a se dizer protegido da divindade padroeira dos imperadores-soldados do século anterior, Deus Sol Invicto, ao mesmo tempo que fez circular uma ficção genealógica (um panegírico da época, para disfarçar a óbvia invenção, falava, dirigindo-se retoricamente ao próprio Constantino, que se tratava de fato “ignorado pela multidão, mas perfeitamente conhecido pelos que te amam”) pala qual ele seria o descendente do imperador Cláudio II – ou Cláudio Gótico – conhecido pelas suas grandes vitórias militares, por haver restabelecido a disciplina no exército romano, e por ter estimulado o culto ao Sol.

No ano de 305, quando Diocleciano abdicou o trono imperial, a religião cristã era terminantemente proibida, e aqueles que a professassem eram castigados com torturas e morte. Logo após a abdicação de Diocleciano, quatro aspirantes à coroa estavam em guerra. Os dois rivais mais poderosos eram Majêncio e Constantino.

Constantino havia conquistado facilmente o norte da Península Itálica, e estava a menos de 15 quilômetros de Roma quando Maxêncio decidiu defrontá-lo frente à Ponte Mílvia, uma ponte de pedra que ainda existe sobre o rio Tibre, na Via Flamínia, que continua até Roma. Dominar a ponte seria crucial para Maxêncio manter o rival fora de Roma, onde o senado decidiria obviamente por apoiar quem quer que conquistasse a cidade. Maxêncio possuía um exército muito mais numeroso que o de Constantino, sendo a conta mais confiável a de quatro legionários deste para cada um fiel a Constantino.

Diferentes relatos históricos contam que ao anoitecer de 27 de Outubro daquele ano, quando os exércitos se preparavam para a batalha, Constantino teve uma visão quando olhava para o sol que se punha. As letras gregas XP (Chi-Rho, as primeiras duas letras de ???????, “Cristo”) entrelaçadas com uma cruz apareceram-lhe enfeitando o sol, juntamente com a inscrição “In Hoc Signo Vinces” — latim para “Sob este signo vencerás”. Constantino, que era pagão até esta época, colocou o símbolo nos escudos dos seus soldados.

Duas narrativas mais ou menos contemporâneas do episódio são mais conhecidas: uma do historiador Lactâncio que afirma que Constantino teria recebido num sonho a ordem de inscrever “o sinal celeste nos escudos dos seus soldados” – o que teria feito ordenando que fosse neles traçado um “estaurograma”, uma cruz latina com sua extremidade superior arredondada em “P”; e outra contada por Eusébio de Cesaréia, que afirma que o próprio Constantino teria lhe dito que numa data incerta, que não necessariamente a véspera da batalha, teria tido, ao olhar para o sol, uma visão de uma cruz luminosa sobre a qual estaria escrito, em grego, “?? ????? ????”, ou, em latim, in hoc signo vinces – “com este sinal vencerás”, e que, na noite seguinte, Cristo lhe teria explicado em sonho que esta frase deveria ser usada contra seus inimigos.

No dia seguinte, os dois exércitos confrontaram-se e Constantino saiu vitorioso. Já conhecido como um general hábil, Constantino começou a empurrar o exército de Maxêncio de volta ao rio Tibre e Maxêncio decidiu recuar, para defender-se mais próximo de Roma. Mas só havia uma escapatória, pela ponte, e os homens de Constantino infligiram grandes perdas ao exército em fuga. Finalmente, uma ponte de barcas colocada ao lado da ponte Mílvio, pela qual muitas das tropas escapavam, sofreu um colapso, tendo os homens que ficaram na margem norte do rio Tibre sido mortos, ou feitos prisioneiros, com Maxêncio entre os mortos. Constantino entrou em Roma pouco depois, onde foi aclamado como o único Augusto ocidental. Ele teve creditada a vitória na ponte Mílvia à “Divindade” – ou a “uma Divindade”, na formulação deliberadamente ambígua escolhida pelo Senado, simpatizante do paganismo, para ser colocada no seu arco do triunfo, e ordenou o fim de todas as perseguições aos cristãos nos seus domínios, um passo que ele já tinha tomado na Britânia,na Gália e Hispânia em 306. Com o imperador como patrono, o Cristianismo, que já era muito difundido no império, explodiu em conversões meramente nominais e em poder político, tornando-se  uma segunda “corte” de Constantino.

5 Comentários para " Política romana do século IV: Constantino e a Igreja "

  1. yuri disse:

    Bom cara seguinte, tem outro fato de constantino ter se tornado um cristao. Dizem que ele cravou uma lança em jesus (Quando jesus foi crusificado) e o sangue de jesus espirrou nos seus olhos curando as cataratas que tinha o constantino e entao constantino tornou-se cristao e alem disso constantino carregava um grande reliquia que até hoje historiadores procuram, A lança sagrada ou a lança do destino depois que a lança foi cravada em jesus a lança passou a ter poderes misteriosos, mais diz a lenda que a lança tinha um lado bom e um lado sombrio e ja passou pelas maos de muitos emperadores e reis, Um deles foi um cruzado da ordem Teotonica dos cavaleiros templarios: Frederico barbarosa, e tbm caio nas maos de adolf hitler ate que um soldado americano na segunda guerra axou e hitler começou a perder a guerra. Depois dai a lança se perdeu, ou seja, nimguem sabe onde está

    • Caro Yuri:
      Seja sempre muito bem vindo ao blog.
      Cuidado com as lendas que te contam, pois algumas delas, além de heréticas, como esta que te contaram não se firmam de maneira nenhuma diante dos fatos.

      Existe um razoável consenso de que a crucificação de Jesus se deu no ano 30 de nossa era. Mesmo os mais empedernidos, ao lançar dúvidas sobre esta data, apontam entre o ano 28 e o ano 36, para citar os extremos mais absurdos. Constantino, por sua vez, nasceu no ano 272, portanto mais de dois séculos depois em qualquer das previsões. Desta forma, se torna impossível que o sujeito tenha feito uso da tal “lança” duzentos anos antes de nascer.

    • kleber disse:

      manoo.. vai estudar, o soldado que perfurou jesus cristo era chamado de longinus. a lança do destino realmente existe e esta situada no museo de viena. o nome propriamente referido a lança e ”lança de longinus”

      • Cynthia Nogueira disse:

        Em qual passagem bíblica está escrito o nome deste soldado? Gostaria de saber.
        Mais um detalhe: este MUSEU possui qual tipo de cerificação de autenticidade da peça?

  2. Francisco Coutinho disse:

    Assisti a um especial no history channel, sobre a vida de constantino e os relatos acima não deixam nada a desejar se comparados aos relatos desse canal. Quanto as letras XP relatadas acima, não são elas que representam o nome de Jesus, e sim as postas ao lado dos cruzamento entre as duas (aproximadamente um “A” e um “w”, essas sim são as letras gregas com as iniciais de Jesus Cristo e o “P” não é na verdade um p e sim próximo de um “r” ou uma foice ou lança com o “X” sobreposto). Quanto as manobras de Constantino, acredito, que “valorizar” o cristianismo nada mais foi no momento que uma jogada política para ter apoio da crescente religião, ele já tinha visto problemas no exército de seu pai adotivo. Quando não recebeu o poder, logo após a morte dele, voltou ao seu pai biológico, tb imperador, porém não cometeu o mesmo reino e em menor número diante do exército de Maxêncio preferiu o apoio de “Deus”. A conversão de Constantino, parece a luz da história, mas uma manobra política do que propriamente uma conversão de fato, além do que sabemos que a Igreja tinha crescente poder e terras interferindo até o fim da Idade Média na política, com todas as barbaridades que já sabemos, confirmadas pelo pedido de perdão de Bento XVI em público. Esse episódio, entretanto, não refuta de forma alguma o poder de Jesus, mas chamando a reflexão, se Jesus apoia e protege durante guerras, o que devemos esperar do mundo se algumas nações possuidoras de bombas atômicas, desenharem esse símbolo em cada ogiva? Armagedom?


Deixe um comentário

Para garantir a publicação de seu comentário, respeite nossa política de uso que você pode conhecer clicando aqui.

Antes de nos dizer que não podemos julgar, clique aqui e descubra que não só podemos como devemos.

XHTML: Você pode usar as seguintes tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>