Eleição: condicional na visão arminiana – Parte I

10,mar,2011 por Georges Nogueira

Jacobus Arminius

 

A grande divergência entre as escolas soteriológicas de Calvino e de Armínio no que tange à eleição trata da natureza dessa eleição. Mais uma vez, sabemos que essa discussão não salva ninguém. Mais uma vez, quero reafirmar meu entendimento de que o que salva é o se converter ao Cristo ressurreto. Sendo assim, porque discutimos esse assunto? Porque nos empenhamos tanto em tentar chegar ao perfeito conhecimento da Palavra de Deus a ponto de podermos definir se uma ou outra escola de pensamento está correta? Minha resposta é que Deus quer que o conheçamos. Ele se dá a conhecer e nos exorta a fazê-lo, como podemos ver na advertência que o profeta Jeremias trouxe ao povo de Deus:

“Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR.” (Jr 9.23-24).

Desta forma, se Deus se agrada de que o conheçamos, é nossa obrigação conhecê-lo e entender seus desígnios para nossas vidas. Se acreditamos que a Bíblia é a única regra de fé e prática do cristão, o mínimo que podemos fazer é entendê-la, ou jamais seremos capazes de viver uma vida cristã de fato. Em última instância, este é um debate sobre o caráter de Deus, e a natureza de sua relação com o homem.

Voltando ao nosso assunto central, após essa necessária justificativa, não posso concordar com a visão calvinista acerca de uma expiação incondicional, justamente pelo que as Escrituras me revelam acerca do caráter de Deus.

Muitos cristãos honestos e sinceros abominam qualquer ideia relacionada à predestinação ou à eleição, simplesmente porque conhecem apenas as ideias originadas na tradição calvinista sobre as tais, e essas ideias não correspondem de maneira alguma à revelação contida nas escrituras a esse respeito. Dessa forma, o engano contido no pensamento calvinista consiste em grande prejuízo para a causa do Evangelho, gerando muita confusão e causando divisões em meio ao corpo de Cristo. Assim sendo, por mais que procuremos dialogar com nossos irmãos calvinistas, evitando o revanchismo estéril e as acusações inúteis de parte a parte, é preciso que esclareçamos alguns desses enganos, a fim estabelecer a verdade bíblica nesta discussão.

Antes de prosseguir na refutação das ideias equivocadas a respeito da eleição, é preciso trazer ao texto o seu conceito Bíblico. Esse conceito eleva a ideia de eleição muito acima do simples conceito de eleição para a salvação, que está apenas contido em uma eleição que é muito mais ampla, e que corresponde à totalidade do plano de salvação elaborado por Deus. James Strong [ref]Strong, James. Strong’s Exhaustive Concordance of The Bible; Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2007;[/ref] nos fornece a seguinte definição para o termo bíblico “eleição”:

“G01589 ?????? ekloge de 1586; TDNT – 4:176,505; n f 1) o ato de selecionar, escolher; 1a) do ato de livre arbítrio de Deus pela qual, antes da fundação do mundo, decretou suas bênçãos sobre certas pessoas; 1b) decreto feito através da escolha pelo qual decidiu abençoar certas pessoas em Cristo apenas pela graça; 2) coisa ou pessoa escolhida; 2a) de pessoas: eleito de Deus”

Esse conceito já é o bastante para que cheguemos ao entendimento comum de que a eleição é bíblica, e como tal não pode ser refutada. Algumas ocorrências da palavra podem ser encontradas em Rm 9.11; Rm 11.5; Rm 11.7; Rm 11.28; 1Ts 1.4 e 2Pe 1.10. O que ainda não observamos até esse ponto, é como se dá essa eleição, e a quem ela se estende. É bem fácil de se constatar que o ponto de vista mais difundido acerca da eleição a enxerga como unicamente individual, como prega a corrente de pensamento calvinista, sendo que a verdadeira origem dessa abordagem reside no pensamento de Agostinho, que afirmou:

“Procuremos entender a vocação própria dos eleitos, os quais não são eleitos porque creram, mas são eleitos para que cheguem a crer. O próprio Senhor revela a existência desta classe de vocação ao dizer: Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi (Jo 15: 16). Pois, se fossem eleitos porque creram, tê-lo-iam escolhido antes ao crer nele e assim merecerem ser eleitos. Evita, porém, esta interpretação aquele que diz: Não fostes vós que me escolhestes.” [ref]Agostinho. A graça (I I); 2ª edição. São Paulo: Paulus, 2007;[/ref]

O Calvinismo ensina que alguns indivíduos são eleitos ou predestinados a se tornarem crentes em Jesus de maneira incondicional e que somente esses serão salvos. De acordo com essa teologia, Deus escolheu aqueles que Ele desejava que respondessem ao chamado do Evangelho mesmo antes de eles serem criados por Ele. Por conseguinte, ao ouvir o chamado, aqueles pecadores que foram escolhidos são irresistivelmente capacitados a respondê-lo, sendo salvos, enquanto o restante da humanidade será condenado a passar a eternidade no inferno.

Ainda segundo o calvinismo, ninguém poderia dizer como Deus escolhe aqueles a quem ele salva. Para preencher o vácuo lógico, filosófico e teológico dessa afirmação, alega que somente Deus conhece seus próprios motivos. Invoca a soberania divina, dizendo que Deus determinou não revelar esses motivos, por isso eles não podem ser conhecidos pelos homens. Assim, do ponto de vista humano, a eleição é totalmente incondicional. Não existem condições estabelecidas as quais se podem reunir a fim de qualificar-se para ser escolhido. Nas palavras do próprio Calvino:

“Portanto, estamos afirmando o que a Escritura mostra claramente: que designou de uma vez para sempre, em seu eterno e imutável desígnio, aqueles que ele quer que se salvem, e também aqueles que quer que se percam. Este desígnio, no que diz respeito aos eleitos, afirmamos haver-se fundado em sua graciosa misericórdia, sem qualquer consideração da dignidade humana; aqueles, porém, aos quais destina à condenação, a estes de fato por seu justo e irrepreensível juízo, ainda que incompreensível, lhes embarga o acesso à vida.” [ref]Calvino , João. As Institutas; 2ª edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, Vol. III, P. 393;[/ref]

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  1. Eleição: condicional na visão arminiana – parte II | A Palavra que Liberta

3 Comentários para " Eleição: condicional na visão arminiana – Parte I "

  1. Olivar Alves disse:

    Georges,
    creio que há alguns equívocos na sua interpretação do que o Calvinismo diz sobre o assunto. Contudo, não farei aqui uma defesa ao Calvinismo (ainda que minha resposta seja totalmente influenciada por essa escola teológica). Falarei aqui do conceito de eleição que vejo na Bíblia.
    Primeiramente, como tenho mostrdo nos meus artigos, a eleição é incondicional porque o homem, não tem nenhuma condição favorável para adquiri-la diante de Deus. E isso qualquer arminiano concordará comigo.
    Agora, o fato de Deus ter nos escolhido antes da fundação do mundo, não é coisa de Calvino e nem de Agostinho: é de Paulo, dos profetas e do próprio Senhor Jesus, portanto, é Bíblico. Mas, se voc~e seguir por essa questão do tempo (eternidade passada, quando Deus nos escolheu) até mesmo o arminianismo se enrola. Pois, neste tempo em que Ele determinou tudo, nada e ninguém existia, somente Deus. Daí qualquer ação do homem em direção a Deus é resposta que o homem dá somente depois da ação soberana de Deus em ter escolhido os Seus que no tempo e espaço da existência deles haveriam de recebe-Lo como salvador (assim dizem os calvinistas), ou pela Sua preciência Ele viu os que no tempo e espaço) haveriam de crer Nele (assim dizem os arminianos).
    Se ninguém existia, a não ser a Santíssima Trindade, então a nossa salvação do começo ao fim é obra de Deus.
    Mais uma coisa sobre a eleição. Deus não escolheu alguns e mandou o resto pro inferno. Todos caminhavam (mesmo que ainda não existissem) para o inferno, e Deus escolheu para Si alguns (não necessariamente poucos) para serem salvos, e estes escolhidos, no tempo determinado por Deus (obviamente, no tempo da existência de cada um deles – no meu caso foi em 12 de outrubro de 1989, e eu nasci em 17 de novembro de 1972, e fui predestinado por Deus lá na eternidade passada), ouvirão a Palavra e serão tocados pelo Espírito Santo para receberem a Cristo como salvador e a vida eterna. Não entendo o que há de tão complicado nisso.
    Quanto a apelarmos para a soberania e sabedoria de Deus para explicar o que não tem explicação, isso não é coisa só de Calvinista não. Já vi muito Arminiano fazer o mesmo, e isto não está errado, pois, se Deus mesmo disse que os nossos pensamentos não atigem os Dele e os caminhos Dele são mais altos do que os nossos, porque eu diria o contrário? Existem verdades na Palavra de Deus que não entenderemos, mas, que por estarem ali reveladas, devem ser cridas mesmo quando não compreendidas. Quer um exemplo disso? Alguém por favor me explique o mistério da Trindade.
    Porque não compreendo como é que a Trindade é e ao apelar para a infinitude de Deus, estou agindo de forma a me esquivar? Creio que não.
    Por fim, você assossiou Calvino a Agostinho, e não há qualquer problema nisso. Na Soteriologia, Agostinho, como diriam os adolescentes “arrebentou”; o problema dele está na Eclesiologia; ali ele “enfiou o pé na jaca”. E Calvino bebeu em Agostinho com relação à Soteriologia. E qualquer bom teólogo faz o mesmo. Depois de Paulo, Agostinho foi o maior teólogo.
    Olivar

  2. Georges Nogueira disse:

    Olivar: releia o artigo com calma. Nele, você encontrará a condição. E você a perceberá fundamentada na Bíblia.
    No mais, sugiro que levemos a discussão para o fórum.
    Aos demais leitores, caso também queiram participar, esse assunto da eleição está sendo discutido no nosso fórum, neste link.

  3. que comentario mais [termo ofensivo excluído pela moderação].como pode DEUS ter escolhido alguns pra ir morar no ceu e outros pro inferno.onde está o amor de DEUS por todos?entao a morte de cristo na cruz foi em vao.que pena que voces estao levando em conta o pensamentos de homens falhos,sujeitos a errar.eu sigo a cristo que deu sua vida por todos os seres humanose nao no cristo de alguns


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