Estudos na Carta de Tiago – A Fé Cristã na Prática (Parte X – Final) – as palavras do crente

22,nov,2010 por Olivar Alves Pereira

Palavras ofertadas

“Acima de tudo, porém, meus irmãos, não jureis nem pelo céu, nem pela terra, nem por qualquer outro voto; antes, seja o vosso sim sim, e o vosso não não, para não cairdes em juízo. Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores. Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo. Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis meses, não choveu. E orou, de novo, e o céu deu chuva, e a terra fez germinar seus frutos. Meus irmãos, se algum entre vós se desviar da verdade, e alguém o converter, sabei que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados.” (Tg.5.12-20)

Um dos assuntos que Tiago traga com veemência em sua carta é o uso da língua (palavras) que o crente faz. Para Tiago (e para toda Escritura Sagrada) as palavras do crente devem refletir o caráter de Deus em sua vida. De uma forma bem simples e clara podemos dividir esse trecho da carta em duas partes: nossas palavras em relação a Deus, e nossas palavras em relação ao próximo. Vejamos o que essa preciosa porção das Escrituras nos ensina.

1 – As nossas palavras dirigidas a Deus (Tg.5.13-15; 5.17-18).

Nesses versos Tiago trata da oração. A oração é a palavra do crente dirigida a Deus na qual ele expressa sua confiança em Seu poder. Aqui Tiago lista algumas situações em que o crente deve fazer uso da oração:

Oração em momentos de sofrimento (Tg.5.13): Esse verso caminha justamente na contramão do que diz a “voz popular”, a saber, “quem canta seus males, espanta”. Neste verso vemos que é quem ora que vence seus sofrimentos: “Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração”. E para os momentos de alegria: “Cante louvores”. A oração de um coração sofrido que admite sua fraqueza e seu pecado, é atendida por Deus. No Sl 51.17 lemos: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus”. Quanto conforto perdemos para o nosso coração sofrido quando deixamos de buscar a Deus em oração! O mesmo pode ser dito dos nossos momentos de alegria. Quantas vezes deixamos de cantar louvores a Deus nos momentos de alegria! Numa festa de aniversário fazemos a “parte espiritual” com tanta superficialidade e rapidez, para logo partirmos para a “parte social”. Este verso vem nos lembrar de uma dura verdade: como nosso coração foge de Deus; fugimos Dele quando estamos sofrendo deixando de buscá-Lo em oração, ou quando estamos alegres não o louvamos como deveríamos.

Oração em momentos de enfermidade (Tg.5.14-15): No versículo 14 encontramos um elemento indispensável para que a oração em favor de um enfermo “funcione”. Se você pensou no óleo, errou. Se arriscou que esse elemento seja os presbíteros, também errou. O elemento indispensável é o que está no final do verso: “em nome do Senhor”. Quanto à presença dos presbíteros, o que Tiago está mostrando aqui, é que a liderança da Igreja deve estar atenta às dores e lutas do rebanho do Senhor. É função do presbítero pastorear (veja 1 Pe 5.1-2).

Quanto ao uso do óleo, é importante destacarmos que aqui Tiago aponta para o caráter medicinal. Comentando esse verso a Bíblia de Estudo de Genebra diz: O azeite de oliveira era usado com frequência na medicina no mundo antigo (Mc 6.13; Lc.10.34). Também o óleo pode ter uma referência simbólica do poder curador de Deus. Concordamos que o uso do óleo aqui seja medicinal. Quanto ao aspecto simbólico não o negamos, porém, vemos o mesmo com muita ressalva, justamente, porque o óleo no Antigo Testamento apontava para o Espírito Santo, o qual veio em Sua plenitude no Novo Testamento. Além disso, o coração humano é idólatra e com muita frequência busca para sua fé os tais “pontos de contato”. Isso é contrário ao que prescreve as Escrituras Sagradas. Andar por fé é justamente não necessitar se agarrar a nada material. Assim sendo, devemos evitar não só o retrocesso dos tempos do Antigo Testamento (já temos a concretização do que simbolizava o óleo), e a idolatria de julgarmos que um simples óleo “ungido” é que resolverá o problema. Isso é animismo.

O que torna a oração eficiente é o fato dela ser feita “em nome do Senhor”. Mas, que isso não seja tomado supersticiosamente, como se fosse uma palavra mágica. A oração feita em nome do Senhor leva em consideração: a glória do Senhor em questão, que tanto pode ser vista na cura do enfermo ou não, pois se for curado, Deus é quem merece toda glória, e, se, não for curado o enfermo, Deus deve ser glorificado também como aquele que sustenta o desvalido; a vontade do Senhor: Deus cura se Ele quiser ou não cura se não quiser; para tudo Ele tem um propósito.

Já o versículo 15 tem sofrido interpretações das mais esdrúxulas. Os católicos romanos o tomam como base para a “Extrema-unção”, a qual, inicialmente, tinha o caráter de cura, e que, hoje é vista como “o último sacramento recebido antes da morte”. O que para a Igreja Católica era “sinal de vida e cura” tornou-se “sinal de morte”. Que tal interpretação é equivocada, não precisamos dizer. Já muitos crentes depositam tanta fé na oração que pensam que pelo simples fato de orarem, reverterão a situação. A oração por mais bela e bem formulada que seja, não tem poder em si mesma. Tiago deixa bem claro que quem levantará o enfermo é o Senhor.

Outro aspecto da oração aqui é o efeito terapêutico da oração: “…e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados”. A Bíblia de Estudo de Genebra diz: “O pecado e a doença têm afinidade. O perdão é terapêutico, tanto para o corpo como também para a alma”. Pecado não confessado e falta de perdão traz dores (enfermidades) para o corpo. Veja o que diz o salmista:

“Bem-aventurado aquele cuja iniqüidade é perdoada, cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniqüidade e em cujo espírito não há dolo. Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. Confessei-te o meu pecado e a minha iniqüidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao SENHOR as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniqüidade do meu pecado.” (Sl 32.1-5).

Voltaremos a esse assunto no próximo ponto quando falarmos sobre a prática mútua da confissão de pecados. Por enquanto, basta dizer que quando alguém confessa seu pecado a Deus, colhe de imediato os benefícios do Seu perdão (um coração aliviado e reconciliado com Ele), e também os benefícios para o corpo (cura das enfermidades) que poderão vir mais tarde (ou imediatamente também). O exemplo de Elias nos versículos 17 e 18 aponta-nos o dever de orar “com instância”, ou seja, nunca esmorecer e desanimar até obter a resposta de Deus segundo a vontade Dele. Elias orou porque tinha convicção da vontade de Deus. O que ele mais queria era glorificar a Deus diante daqueles idólatras. Uma pergunta que devemos sempre responder quando oramos é: a glória de quem buscamos quando pedimos a Deus alguma coisa? Isso responderá se a nossa oração agrada ou não a Deus.

2 – As nossas palavras dirigidas ao próximo (Tg.5.12;16; 19-20)

Como sempre, Tiago aponta que a nossa relação com Deus também nos leva a nos relacionarmos com as pessoas. No versículo12 ele trata de uma questão muito séria: os juramentos. A Bíblia não nos proíbe de fazermos juramentos e votos. Antes, ela deixa bem claro que só podemos jurar e fazer votos se tomarmos Deus como testemunha. O que Deus está proibindo aqui no versíulo 2 não é o juramento feito a Ele, mas, sim, feito por qualquer coisa ou pessoa “nem pelo céu, nem pela terra…”.

A Confissão de Fé de Westminster mostra que a diferença entre juramento e voto está no fato de que o primeiro é público e o segundo, particular e quase sempre secreto. Contudo, os dois são feitos na presença de Deus. O que Tiago está nos ensinando aqui é credibilidade em nossas palavras: não é o simples fato de fazermos juramentos ou votos, mas, sim, o evocarmos qualquer coisa por testemunha para dar mais credibilidade ao que falarmos. Suspeite de alguém que para tudo o que fala acrescenta: “Eu juro por isso, ou por aquilo…”. Antes: “seja o vosso sim sim, e o vosso não não, para não cairdes em juízo” (veja Mt.5.37), isto é, para que não sejamos desacreditados e julgados como mentirosos. Tal coisa é vergonhosa demais para o Evangelho.

A mutualidade da confissão e do perdão (Tg 5.16): neste verso temos um ensinamento precioso. Seguindo o assunto do ponto anterior, Tiago está mostrando aqui a importância do pedirmos perdão uns aos outros quando pecarmos uns contra os outros. Geralmente, as pessoas tomam a parte final desse verso para falarem sobre a importância da oração: “Muito pode por sua eficácia, a súplica do justo”. Contudo, devemos lembrar o contexto dessas palavras. O contexto é de perdão. Deus não ouve a oração de um coração que insiste em não perdoar. A oração dominical nos lembra: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado os nossos devedores” (Mt 6.12). E o Senhor Jesus ainda acrescenta: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt 6.14-15).

É lamentável como negligenciamos o perdão aos que nos ofenderam. Ficamos ressentidos e remoemos nossas mágoas em vez de liberarmos o perdão. Se quisermos ter nossas orações respondidas precisamos exercitar a mutualidade da confissão e do perdão dos pecados cometidos em relação aos nossos irmãos. Muitos crentes não têm suas orações respondidas por causa da dureza do coração em perdoar. Muitos até se escoram num conceito errado dizendo: “Deus me ama do jeito que eu sou. Mesmo sabendo que eu não consigo perdoar o fulano, Ele ouvirá minha oração porque é misericordioso”. A melhor maneira de agradarmos a Deus é pela obediência (1Sm 15.22) confiante no sacrifício de Jesus. Se eu não perdoo a quem devo, então é porque não conheço a Deus.

A prática da exortação (Tg.19-20): o bom crente cuida não apenas de si, mas, também do seu irmão, especialmente, o que “se desviar da verdade” (versículo 19). Em nossos dias, as pessoas têm cultivado a cultura do “ninguém tem nada a ver com a minha vida”. Por isso, falar da prática da exortação soa agressivo e estranho para muitos. Mas a Bíblia nos manda exortarmo-nos uns aos outros. É dever de todos cuidarem uns dos outros. A Igreja Primitiva era conhecida como uma “comunidade dos que se cuidavam” (At 4.32-35). O objetivo da exortação é encorajar o que estiver desanimado, é corrigir o que estiver em falta, é servir de apoio para quem está fraco. Contudo, o caráter corretivo seja o mais destacado por Tiago aqui, todos esses sentidos são aplicados à exortação. Se você conseguir convencer de pecado quem estiver pecando, se você atuar a tal ponto para converter um irmão que caminha em direção oposta à que Deus quer, então você verá a alma dele ser salva da morte e verá os pecados dele ser perdoados e ele liberto da escravidão.

Conclusão

Concluindo nossos estudos na carta de Tiago lembramos do tema central da mesma: A fé cristã na prática. Somos desafiados a praticar, obedecer ao que a Bíblia nos ensina. Como sempre temos ressaltado, na vida cristã temos de fazer o que é certo mesmo quando nosso coração reluta e não quer fazer. Muitos crentes alegam que fazer algo sem ter vontade é hipocrisia. Contudo, fazer o que é certo mesmo sem ter vontade não é hipocrisia, mas, deixar de fazer é negligência. Muitos não querem pecar por hipocrisia mas, não se importam em pecar por negligência. Faça o que Deus lhe ordena, seja encontrado fiel pelo Senhor quando Ele lhe chamar para prestar contas. Pratique a fé cristã pondo-a em prática.

A Deus toda a glória!


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