Introdução à exegese de Mateus

02,jun,2010 por Georges Nogueira

Leitura de Mateus

para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. (Ef 4.14).

Mandam as boas normas da Hermenêutica que se analise o livro a ser abordado, informando, principalmente, quem escreveu o livro, qual seria seu público alvo e seu contexto histórico. Conforme anunciado nos últimos posts, muitos dos versículos mais distorcidos hoje em dia estão no Evangelho de Mateus. Como se faria deveras cansativo e desnecessário repetir a análise do livro ao estudar cada um dos versículos, este é um artigo preparatório que será devidamente citado sempre que o versículo em apreço estiver contido no Evangelho de Mateus.

A principal fonte de informações sobre a vida, ministério, o sofrimento e a ressurreição de Jesus é constituída pelo conjunto dos Evangelhos do Novo Testamento bíblico. O valor desse conjunto de obras é incalculável para o cristianismo.

O termo Evangelho tem sua origem no grego Evangelion, que tem como significado original o “pagamento pela transmissão de uma boa notícia”. Ao longo dos anos, com a evolução dos costumes, essa expressão teve seu significado alterado apenas para “boa notícia” ou “notícia de vitória”. No império romano, esta expressão começou a adquirir uma conotação religiosa em função do culto a César, que era venerado como se fosse um deus. Há indícios como a inscrição constante do calendário de Priene que data do ano nove a.C.: “O nascimento do deus foi para o mundo o início das novas de alegria, que por causa dele aconteceram.” Esta e outras fontes extra-bíblicas citam com frequencia o termo novas de alegria evangelia, em contraste com o texto bíblico que sempre utiliza Evangelion, no singular.

A versão grega do Antigo Testamento bíblico traduz o termo hebraico “besorah” (que deriva da raiz bisar), como Evangelion. Sua significação profana era: “proclamar uma notícia de alegria” (2 Sm 18.20, 25, 27; 2Rs 7.9). Já no contexto bíblico, o termo significa sempre a “salvação vindoura”, escatológica, que virá no fim dos tempos, como em Is 52.7.

O apóstolo Paulo anuncia ao mundo sua compreensão de que Jesus era o conteúdo do Evangelho. Para ele, o nascimento, o ministério na terra, o sofrimento, a morte e a ressurreição do Senhor Jesus (Rm 1.1-9; 15.19; 1 Co 9.12,18). Por este motivo Paulo definiu o Evangelho como “A mensagem salvífica de Jesus Cristo”.

Marcos começa sua narrativa anunciando que se tratava de um Evangelho: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1.1). Em seguida, Marcos descreve o ministério público de Jesus, sua morte e sua ressurreição.

Os Evangelhos não constituem meras biografias de Jesus Cristo. O gênero literário biográfico já existia à época em que os Evangelhos foram escritos, e muitas biografias de homens considerados “grandes” já eram então conhecidas de todo o povo alfabetizado. Ao contrário, os Evangelhos são o registro escrito das obras e dos atos do Filho de Deus, com o objetivo de despertar e fortalecer a fé de quantos viessem a conhecê-lo, como João chega a afirmar peremptoriamente no versículo trinta e um do capítulo vinte do Evangelho que escreveu.

Este primeiro Evangelho bíblico de Mateus foi o que mais influenciou a história da Igreja cristã. Ainda no século segundo, já era conhecido em todo o cristianismo e formava então a base para a instrução acerca das obras e dos ensinamentos deixados pelo Cristo ressurreto. Mesmo que os outros Evangelhos tenham crescido em destaque e importância com o passar dos séculos, o Evangelho de Mateus continua tendo importância primordial no que tange aos ensinamentos acerca dos grandes discursos proferidos pelo Senhor Jesus, como o sermão do monte.

Mateus se utilizou de perícopes mais curtas do que Marcos, por exemplo, para relatar situações semelhantes. Isso aliado ao fato de que se pode afirmar que a marca distintiva de Mateus era o ensino acerca de Jesus e à amarração que o autor fez de suas sequências de sermões sempre interligados por temas em comum, demonstra que a organização didática de seu Evangelho pressupunha um conhecimento da parte de seus leitores dos costumes, tradições e expressões idiomáticas utilizados em seu texto, evidenciando que seu público alvo eram os judeus. As particularidades da narrativa de Mateus reforçam essa idéia na medida em que se avança na leitura de seu Evangelho. Ao narrar, por exemplo, o hábito judeu de lavar as mãos (Mt 15.2), Mateus não dá qualquer explicação, ao passo que Marcos insere três versículos na explicação de que aquela era uma tradição que os anciãos guardavam junto a “muitas outras coisas que receberam para observar” (Mc 7.2-4). Como ambos os evangelistas estão tratando do mesmo acontecimento, pode-se ver claramente que estão falando para públicos bem distintos e que o público de Mateus conhecia toda a cultura e tradição judaicas. Um último alicerce para este entendimento pode ser extraído das narrativas de Mateus acerca das vestes judaicas, como os filactérios que os judeus utilizavam nos braços ou as franjas no canto das vestes (Mt 23.5).

Quanto ao aspecto idiomático, Mateus utiliza-se da mesma linguagem que era então utilizada pelos fariseus e pelos sacerdotes judeus. Em passagens como a que narra o diálogo travado entre Jesus e os fariseus, Mateus formula os questionamentos farisaicos exatamente como os rabinos da época faziam: “É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? ”(Mt 19.5). A resposta de Jesus, igualmente, foi formulada dentro da mesma norma: “Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério” (Mt 19.9). Essa precisão encontrada na narrativa judaica do Evangelho escrita por Mateus, foi o que lhe permitiu captar e transmitir algumas expressões idiomáticas vívidas de Jesus, como “coais o mosquito e engolis o camelo” (Mt 23.27). Mateus chega a se utilizar de transliterações de palavras aramaicas para o grego, como é o caso da palavra raka que significa tolo ou idiota (Mt 5.22) ou Korbanan que é o tesouro do templo (Mt 27.6).

Da mesma forma, o propósito do Evangelho de Mateus era dirigido aos judeus, pois ele se concentra em testificar que Jesus era o Messias da promessa do Antigo Testamento, e que sua missão messiânica consistia em trazer o reino de Deus até os homens. A cristologia de Mateus evidencia através das citações reflexivas que permeiam todo o texto essa condição messiânica de Jesus. O título de Filho de Davi (Mt 12.23; 15.22; 21.9;15), só é empregado por Mateus com esta ênfase.

A genealogia de Mateus apresentada logo no início de seu Evangelho (1.1-17) começa em Abraão e termina em Cristo não por acaso. Para Mateus, a Lei que Deus havia entregado aos judeus no Antigo Testamento não havia nunca deixado de valer (Mt 5.19; 23.3). Pelo contrário, se Jesus era o Messias, Ele não poderia revogar a Lei, mas cumpri-la (Mt 5.17).

Essa dependência da narrativa de Mateus com a fé judaica e seu longo relacionamento com Deus como povo escolhido por Ele, é a tônica por trás da esperança contida no Messias prometido sobre o qual sua narrativa se debruça tão detalhadamente. Também a questão que ainda hoje suscita contenda, levantada entre o particularismo ou o universalismo da salvação contida na obra de Jesus, o Cristo, está presente na narrativa de Mateus. Em sua narrativa, Jesus se mostra como o Messias do povo de Israel, quando dá instruções aos doze discípulos que envia a pregar a sua mensagem: “Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos, mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10.5-6). Também quando Jesus diz à mulher Cananéia: “não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de meu pai” Em Mateus, Jesus rejeita à mulher por duas vezes (Mt 15.24,26), enquanto que Marcos, demonstra apenas a segunda rejeição.

Por outro lado, o universalismo da graça de Jesus também está explícito na narrativa de Mateus. Somente ele narra a visita dos astrólogos do oriente para honrar ao Rei de Israel (Mt 2.1-12). A já citada genealogia compilada por Mateus também cita o nome de mulheres gentias como Raabe e Rute, como não se costumava fazer então. Outros trechos do Evangelho de Mateus evidenciam este dualismo: 13. 38; 22.9; 24.14 e, culminando a direção de sua narrativa sobre o Messias, o ide em 28.19 aponta para “todas as nações”. Desta forma, pode se afirmar com acerto que Mateus acreditava que a obra de Cristo em sua vida terrena se referia especificamente ao povo de Israel, mas que Ele deixou instruções para que seus discípulos levassem seu Evangelho a todos os povos da terra.

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4 Comentários para " Introdução à exegese de Mateus "

  1. Wislley disse:

    Boa tarde Georges;

    Ótima explicação sobre o livro de Mateus. Quando baseamos qualquer texto bíblico no contexto histórico à ele aplicado a interpretação fica clara.

    No último sábado tive a oportunidade de conversar com um irmão (neófito na fé) sobre um assunto exposto no velho e no novo testamento. Ele estava analisando o texto conforme fora escrito para ser aplicado pela Lei de Moisés (e queria aplicar na própria vida assim), enquanto eu tentava mostrá-lo que nos dias de hoje deve ser aplicado com base na graça. Por fim, deixei um estudo com ele e no próximo sábado voltaremos a conversar.

    É como diz o bom e velho ditado: “Um texto sem contexto, vira pretexto”.

    Abraços;
    Wislley

  2. Wislley disse:

    O assunto em questão era o “dízimo”, analisado antes de Lei, durante a Lei e após a Lei mosaica.

    É um assunto extenso (e polêmico), que valeria até mesmo um post específico (se é que já não tem um). Como sabemos, há igrejas que defendem a tese da “devolução” dos 10%. Há outras, como a católica, que utilizam da palavra “dízimo” (a décima parte) mas deixam o valor livre para os fiéis (não deveriam utilizar essa palavra pelo que ela represente) e há ainda outras que não utilizam a palavra “dízimo” por não entenderem que hoje prevalece como mandamento os 10%.

    Como você enxerga tal assunto?

    Wislley
    Muriaé/MG

    • Wislley, como você mesmo disse, é assunto extenso e polêmico. Prefiro mesmo responder via novo artigo. Farei um esforço para postar antes do próximo sábado. Se for útil, você mostra para o irmão em questão, e utiliza como base para defender seu ponto de vista.
      Se não for, você pode mostrar para irmão e dizer: “não faça como esse fariseu incrédulo e perdido”.
      De qualquer forma, deve ajudar.


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